Fundação Universitária Mario Martins | Centro de Estudos Psiquiátricos Mario Martins | Saúde mental no trabalho: uma perspectiva de gênero
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Uma reflexão sobre o papel da mulher: mulher criança, adolescente, adulta e vivendo o envelhecer.  Essa foi a tônica da palestra da Dra. Maria Alice Salles, psicóloga clínica, supervisora e professora da Fundação Universitária Mário Martins, que abordou o tema “Saúde mental no trabalho: uma perspectiva de gênero”, no   painel “Os desafios do protagonismo feminino no serviço público”, organizado pelo CONACATE – Confederação Nacional das Carreiras e Atividades Típicas de Estado, em alusão ao Mês da Mulher.

No texto abaixo, a palestra na íntegra, incluindo questões levantadas pelos organizadores do evento. Nesta abordagem, a Dra. Maria Alice chama a atenção para a importância do debate sobre a saúde mental no trabalho – cada vez mais relevante e necessário na sociedade atual.


Confira:

“No mês de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher, a partir das lutas e conquistas das mulheres ao longo da história com a data de 8 de março de 1975 oficializada pela Organização das Nações Unidas.

Gostaria de refletir com vocês sobre o papel da mulher: mulher criança, adolescente, adulta e vivendo o envelhecer.

Quero deixar claro que irei falar com base em uma reflexão existente na minha clínica e no ambulatório da Fundação Universitária Mário Martins, onde atendo, dou aula e sou supervisora.

Quando faço referência à mulher criança, pergunto às mulheres: Qual presente vocês lembram que ganharam quando eram pequenas, principalmente as mulheres com mais de 35 anos que, suponho, poderão ter mais identificação com o questionamento.

Alguém lembra de ter ganho alguma vez boneca, panelinhas, casinha, algo que lembre cuidados com a casa e filhos? Com certeza, também ganharam livros e outros objetos recreativos, tal como deve ter ocorrido como os meninos.

Será que os homens também ganham, com tanta frequência, objetos que lembram a vida doméstica? Ou ganham “mais” carrinhos, bolas, espadas, super-heróis?

Quero deixar claro que estou fazendo referência aos símbolos que costumam acompanhar a forma como cada criança é estimulada em seu ambiente familiar e que irá ter reflexos em sua vida futura.

Mulheres adolescentes e adultas, “algumas”, têm TPM, tensão pré- menstrual com sintomas de leves a graves, o que pode atrapalhar muito seu humor, bem como o desempenho escolar e profissional.

Sabe-se ainda que mulheres adultas precisam decidir se serão mãe ou não, pois têm um relógio biológico.

Mulheres em torno dos 45 anos já iniciam sua preocupação com a menopausa, momento que precisa ser acompanhado por médicos de diversa especialidades, para que a vida siga tendo ótima qualidade, o que é muito possível.

Mulheres adultas estatisticamente cuidam mais de seus pais idosos ou familiares adoentados.

Para finalizar, observo que muitas mulheres estão evitando crescer profissionalmente e aceitar cargos de chefia em razão da sobrecarga emocional que pode gerar em suas vidas, algo que não costuma afetar tanto os homens isso é um fato. Por tanto nós mulheres precisamos nos cuidar muito.

 

Como equilibrar a vida pessoal e carreira?

O apoio emocional e a psicoterapia têm papel fundamental no processo de desenvolvimento. O apoio psicológico favorece o processo reflexivo e o equilíbrio a partir das características individuais da vida de cada pessoa, de suas particularidades, necessidades, desejos e dificuldades também.

A ascensão profissional passa pelo processo evolutivo emocional, como forma de não adoecer. Vale frisar a crise na saúde mental do trabalhador brasileiro tendo em vista que, em 2024, foi registrado o maior número de afastamentos dos postos de trabalho em razão de transtornos mentais.

 

Como as questões de gênero influenciam a saúde mental no ambiente de trabalho?

Acredito que os sintomas vinculados ao ser mulher e à maternidade podem gerar uma sobrecarga com consequências orgânicas e emocionais. No entanto, sabe-se que as exigências com a performance profissional são direcionadas tanto aos homens quanto às mulheres.

A empatia de chefia para com seu grupo de trabalho, o perfil de personalidade do líder e a admiração, a meu ver, são aspectos que influenciam muito no ambiente de trabalho, favorecendo a saúde emocional do trabalhador. Hoje, não observo diferenças entre homem e mulher neste aspecto, e sim no perfil de personalidade dos chefes, pois eles têm a atribuição de favorecer as relações de trabalho e não se isentar. Devem cuidar das demandas de sua equipe. Por isso, a busca de apoio nos serviços de desenvolvimento de pessoas é fundamental e acredito que agora com a implementação da NR-1 irá acontecer.

 

– Mulheres em posição de liderança, precisam se esforçar mais para desenvolver seu trabalho de forma plena para que sejam reconhecidas. Você observa mais mulheres com queixas por ocupar cargos de liderança ou por não conseguir conquistar esses espaços? Existem diferenças na forma como mulheres e homens lidam com essas pressões?

Na amostra que tenho em meus atendimentos, observo homens e mulheres preocupados com a pressão no trabalho. Digo que o trabalho e suas vicissitudes, antes da pandemia, eram de uma forma e passaram a ser de outras maneiras depois. Ocorreram mudanças também após as enchentes. A pandemia e as enchentes trouxeram perdas em relação aos aspectos emocionais, evolutivos e financeiros.

Acredito que as mulheres, por tudo o que já foi mencionado, recebem mais pressão sim e precisam fazer mais esforços.

 

A chamada dupla jornada, em que muitas mulheres conciliam trabalho e responsabilidades domésticas, tem sido apontada como um fator significativo de desgaste emocional. Por outro lado, o esgotamento profissional, o Burnout, tem sido amplamente discutido nos últimos anos. Como lidar com essas questões que acabam se encontrando no emocional do feminino?

Síndrome de Burnout é um estresse ocupacional crônico no trabalho, que foi em 1º de janeiro de 2022 incluído como Doença da Saúde Mental. Síndrome é um conjunto de doenças gerado pelo esgotamento.

Faz pouco tempo que o esgotamento gerado pelo trabalho vem sendo valorizado. Hoje, bom que está! Que bom que teremos a implementação da NR – 1 para a gestão de risco psicossocial do trabalhador.

As mulheres, de fato, têm mais que dupla jornada de trabalho, principalmente as que têm responsabilidade familiar. Muitas estudam, se aperfeiçoam, viajam a trabalho etc. Tudo para favorecer o crescimento em sua carreira. Tentam ser a “Mulher Maravilha” que só existe em filme. Algumas conseguem e outras adoecem. É preciso observar os sinais.

Observo também homens mais participativos na vida doméstica e dividindo tarefas em seu ambiente familiar.

 

Como a cultura organizacional pode contribuir no sentido de perpetuar ou minimizar os problemas de saúde mental? 

O desenvolvimento humano precisa estar em constante movimento, sendo que são básicas as relações entre chefias, líderes e colegas. A comunicação interna, referida em algumas empresas como endomarketing, é fundamental para que a equipe tenha satisfação. São ações internas que buscam melhorar o setor favorecendo a motivação e diminuindo o índice de insatisfação, atestados e doenças. Cargos de chefia precisam favorecer a sua equipe. Percebem-se ambientes nos quais a liderança é quase nula. Vale salientar que o líder é o coordenador, o responsável pela equipe e deve tentar resolver os problemas do seu ambiente a partir da presença. A presença é muito importante.

 

Quais as estratégias podem ajudar as mulheres a estabelecer limites saudáveis entre trabalho e vida pessoal, especialmente em profissões que exigem alta demanda emocional?

Oriento que  busque apoio de um profissional da psicologia e preserve uma rotina. Procurem organizar o tempo, cuidar da saúde, dormir de 6 a 8 horas diárias e, caso tenham problemas com o sono, procurem um médico. Fazer atividade física é essencial, bem como evitar o consumo de bebidas alcóolicas sistematicamente. É necessário cuidar do peso corporal. Ter tempo com os filhos é essencial para que a culpa não seja um problema, pois eles precisam muito da mãe e ainda ter proximidade com a rede de apoio, ou seja, avós, tios, dindos etc. Ter vida social é relevante também. Procure estar com amigos e promover um clima de proximidade com os companheiros ou companheiras. Não deixem de estudar, pois acompanhar as atualizações é fundamental. Difícil, não é? O tempo precisa ser dinâmico. Precisamos ser criativas.

 

Como o assédio, tanto moral quanto sexual, pode afetar a saúde mental da mulher no ambiente laboral? Poderiam citar alguns comportamentos machistas que afetam as mulheres em seus ambientes de trabalho? Vocês já presenciaram algum comportamento assim?

Percebo pouco em decorrência das leis existentes, porém, quanto maior for a autoestima da mulher e a postura de manter certo distanciamento de pessoas machistas, menos acontece. A ingenuidade e a submissão devem ser observadas e tratadas. O processo psicoterapêutico tem a função de proteção do aparelho psíquico, bem como do apoio para vivenciar tais situações.

 

A desigualdade salarial e a baixa representatividade feminina em cargos de liderança podem gerar sentimentos de frustração e desmotivação? Como essas questões afetam a autoestima e o bem-estar psicológico das mulheres?

O que percebo no meu consultório e na FUMM são mulheres crescendo e com cargos de liderança, porém culpadas porque não estão conseguindo dar atenção aos filhos, ou aos amigos, aos seus pais, aos cuidados com o corpo etc. São mulheres que trabalham muito e ficam horas envolvidas nas atividades de trabalho favorecendo, inclusive, o Bournaut.

Mulheres frustradas. “Algumas têm dificuldades” para lidar com alguma ação evolutiva para conseguir chegar até a sua chefia ou falar com algum colega que admira. Muitas podem ter sintomas de ansiedade ou depressão, mas não buscam um psicólogo e a frustração só aumenta.

Não podemos esquecer que também existem chefias difíceis que não favorecem a saúde mental. Vale frisar que o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a NR-1 estabelecendo que, a partir de 26 de maio de 2025, todas as empresas deverão incluir a avaliação de riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Com isso, muitos problemas com a relação com o trabalho passam a ter apoio para a possibilidade de superação e não adoecimento.

A Lei de Igualdade Salarial, de 4 de julho 2023, garante a igualdade de remuneração entre homens e mulheres. Tudo muito novo, mas são aspectos que trazem esperança!

 

Mensagem: Conselho

Vida é movimento. Movimento evolutivo. Precisamos continuar nos desenvolvendo e tendo cuidados, principalmente com nossa saúde mental. A psicoterapia é uma escuta a dois, quando um profissional irá fazer a escuta a partir da realidade de cada pessoa, dos potencias e das necessidades.

A rotina é importante e a procrastinação é um perigo.

Equilíbrio mental passa pelo sono, pela saúde física, pelas mais diversas emoções. Procure observar como está a sua tristeza, ansiedade, irritabilidade, desmotivação, e busque apoio de um profissional da área da saúde se tais sentimentos estiver presente de maneira intensa em suas vidas.

Mulheres em cargo de chefia têm a responsabilidade por seu grupo de trabalho é a referência

Cuide de sua saúde física e emocional. Não se deixe para depois!”

 



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