Bullying invisível e a ausência do diálogo: aspectos sobre a série Adolescência
A série Adolescência (Netflix) mostra, através de recursos cinematográficos impecáveis, o impacto do olhar do outro sobre um menino de 13 anos. Há várias camadas de diversos temas abordados, mas o bullying virtual surge, durante a narrativa de 4 episódios, como uma das formas mais cruéis e silenciosas de violência.
Com a ascensão desenfreada das redes sociais, o adolescente mergulhou nesse território, buscando ser validado. Na fase da adolescência, a imagem já ocupa lugar central na formação da identidade, e nas redes, a aprovação ou o “cancelamento” acontecem em questão de minutos. Na série vemos um personagem com sua autoestima destruída por comentários que contém códigos quase secretos: emojis são utilizados simbolizando mensagens que outras gerações desconhecem e o bullying virtual faz um caminho profundo dentro de quem é atingido: ele se internaliza, resultando em sentimentos como vergonha, raiva e ódio.
Todo o sujeito adolescente busca constituir um “eu” ideal – real ou digital, e o seu entorno precisa estar presente através do diálogo, do acompanhamento e da observação. O silêncio, a solidão dentro do seu quarto, com suas ferramentas digitais, fazem com que o personagem principal trilhe caminhos perigosos.
Dra. Rosa Avritchir, psicanalista e Coordenadora do Ambulatório do Adolescente da FUMM, afirma: “para mim, a cena mais marcante da série é quando o pai (policial) entende que precisa se aproximar do filho, ter um tempo com ele, porque estar de fato, presente na vida dos nossos filhos, com qualidade e não com quantidade, é o que faz a diferença.”
Adolescência propõe reflexões decisivas: precisamos aceitar que um adolescente não está seguro estando dentro da casa, fechado em seu quarto; pais e educadores precisam estar a par do novo universo que envolve as novas gerações; o mundo digital deveria trazer somente benefícios, mas criou problemas que devem ser combatidos.
Hoje o virtual é real, e a série Adolescência nos mostra essa realidade dura, onde nós todos temos um papel fundamental: a interação verdadeira e humana entre pais, mães, educadores e instituições que acolhem estes seres em plena construção.

