Alerta: A falta de rede assistencial em saúde mental leva a casos extremos de grande comoção social
O Dr. Rogério Cardoso, psiquiatra forense e coordenador do curso de pós graduação em Psiquiatria Forense da Fundação Universitária Mário Martins e Centro de Estudos Psiquiátricos Mário Martins, alerta: “A insuficiência de uma rede pública de assistência em saúde mental colabora para que possam acontecer casos como os das gêmeas e o da grávida que teve o feto arrancado, de grande repercussão e comoção pública, pois não existe suporte para identificar sinais, prevenir e tratar pessoas com o perfil dos agressores. Por isso, infelizmente, casos como esses certamente podem vir a acontecer mais vezes”.
Ao observar que parte da sociedade pode ter grande inabilidade em lidar com luto, maternidade e frustrações, como nos dois casos em questão, o Dr. Rogério afirma que “essa inabilidade pode desencadear consequências desastrosas. A maternidade, tão difundida como prazerosa e realizadora, pode ser trabalhosa, difícil. Eu mesmo já atendi vários casos, determinados pela Justiça, nos quais as mães estavam extremamente abaladas pelas demandas de ser mãe, sem condições de lidar com isso”.
Ele ressalta que “na psiquiatria forense, que atua de forma judicial e assistencial, o delito deve ter nexo mental com a saúde mental”. Para estabelecer esse nexo de causa e efeito, avaliação e perícia são fundamentais. E aí reside o grande problema: “Com o fechamento dos Hospitais Psiquiátricos Forenses, não há estrutura para perícias e assistência. Existe a necessidade de mais de três mil perícias por ano. São milhares de presos, homens e mulheres, com doença mental sem serem periciados devido a essa lacuna. Por exemplo, além do número reduzido ou insuficiente de CAPS – Centros de Atenção Psicossocial nos municípios, cerca de um quarto destes não conta com psiquiatra, assim como as Unidades de Saúde, cuja maioria não tem psiquiatras no seu quadro clínico. A Unidade de Dependência Química do Hospital São Pedro está fechada desde a pandemia. Mesmo que o Poder Judiciário tente convocar psiquiatras, algumas perícias não são satisfatórias devido à falta de formação adequada”, adverte o psiquiatra, que reforça: “Nos casos em questão, é imperiosa a necessidade de uma avaliação médica formal e qualificada”.
“O cérebro tem a finalidade de nos manter vivos. Um cérebro doente nos impossibilita de cuidar de nós mesmos e do outros. Por isso casos como esses são um alerta para a necessidade de uma rede eficiente de atendimento em saúde mental, com estrutura e especialistas habilitados”, conclui o Dr. Rogério Cardoso.

